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News| Livros abordam causa gay para público infanto-juvenil

19 junho 2013 Comentar
Fellipe Torres no Diário de Pernambuco.


John Green. Crédito: Editora Record/divulgação

O norte-americano John Green sabe como falar para os jovens. Aos 35 anos, lidera fórum na internet com mais de 1 milhão de seguidores e mantém canal de vídeos com 350 milhões de visualizações. Isso sem mencionar o fato de frequentar as listas de autores bestseller. Depois de narrar romance entre adolescentes com câncer em A culpa é das estrelas (288 páginas, R$ 29,90), e a saga de um garoto prodígio fracassado no amor em O teorema Katherine (304 páginas, R$ 29,90), Green volta às livrarias para abordar a temática gay.

Crédito: Editora Record

Desta vez, ele conta com a parceria de David Levithan, autor de Nick & Norah - Uma noite de amor e música (224 páginas, R$ 29,90). A quatro mãos, narram a trajetória de dois jovens em busca do autoconhecimento, sendo um deles homossexual prestes a conversar como os pais sobre suas preferências. Na mesma semana do lançamento nos Estados Unidos, Will & Will, um nome, um destino (352 páginas, R$ 34,90) já era o terceiro mais vendido na categoria infantojuvenil.

Caminho semelhante foi seguido pelo professor e escritor pernambucano Hugo Monteiro no livro Emílio - Ou quando se nasce com um vulcão ao lado (112 páginas, R$ 29,90), onde a questão da diversidade é levantada por meio de metáforas.

Na tentativa de esconder a verdadeira essência, o protagonista engole um vulcão, cujas erupções o queimam por dentro. A situação só muda quando Emílio encontra outras crianças que o fazem enxergar como outras pessoas também são rejeitadas pela maioria. Em uma época marcada pela afirmação dos direitos homossexuais, com a legalização mundo afora do casamento homoafetivo, os livros são mais um instrumento a favor da diversidade.

“É um reflexão sobre o fato de a sociedade exigir a igualdade das pessoas e recusar traços transitórios e diferentes que caracterizam cada ser humano. A intolerância à diversidade é um problema frequente, pois está sempre ligada ao preconceito”, aponta o autor. Para ele, o jovem contemporâneo tem dificuldade em se compreender gay e falar com os pais sobre o assunto.

Crédito: Escrita Fina/divulgação

Além de escrever, Hugo Monteiro pesquisa a temática no âmbito acadêmico, e afirma que crianças com trejeitos afeminados geralmente sofrem bullying nas escolas. “Tenho acompanhado pessoas reais que passam por situação semelhante ao do personagem Emílio. Elas ficam infelizes, têm problemas na aprendizagem, nas relações sociais e, em casos extremos, chegam a praticar automutilamento”.

Com ilustrações, texto leve e metáforas sutis, Emílio - Ou quando se nasce com um vulcão ao lado tem forte apelo para ser utilizado em sala de aula. No entanto, segundo o autor, há preconceito por parte dos próprios colégios. A rejeição também é percebida pelo psicólogo Fernando Costa, criador de um projeto antibullying com objetivo de identificar o problema, conscientizar pais, professores e alunos.

“Para muitas escolas, assumir a existência do fenômeno é algo negativo para a imagem da instituição. É um engano, pois se ela está preocupada com o bem estar e segurança dos alunos, será reconhecida pela iniciativa”, avalia. Na opinião do especialista, essa é uma questão de responsabilidade também dos pais. “A família tem que se engajar nesse processo, conhecer-se mais e buscar ajuda profissional. Só então poderá ajudar e exigir da escola”.


SERVIÇO

Will & Will, um nome, um destino, de John Greene e David Levithan
Páginas: 352
Preço: R$ 34,90

Emílio - Ou quando se nasce com um vulcão ao lado, de Hugo Monteiro Ferreira
Editora: Escrita Fina
Páginas: 112
Preço: R$ 29,90

TRECHO DE "EMÍLIO"
 
  
Crédito: Escrita Fina/divulgação

“Não é fácil nos ver profundamente, pois costumamos esconder o que somos. Costumamos viver camuflados. Não é que gostemos disso, mas é que usamos estratégias de sobrevivência. Eu entendo que seja difícil compreender o que estou dizendo agora, mas não posso revelar mais do que isso, por enquanto. (…)

Não é fácil nem simples esconder o vulcão, mas é possível. Esconder o vulcão que nasce com a gente é correr muitos riscos a vida toda, entretanto, tem gente que nasce com o vulcão ao lado, cresce com ele ao lado, morre com ele ao lado, e nunca ninguém descobre que essa gente nasceu com um vulcão ao lado. Pode se fazer isso, mas exige sofrimento e dor. É uma escolha. (…)

Liberto o vulcão sempre que estou sozinho. O que penso e o que sinto são coisas tão minhas que quando penso e sinto faço-as sem esconder o meu vulcão. De modo geral, quando sonho, depois que durmo, o vulcão está comigo e com ele livre, consigo ser mais feliz.

Mais da literatura gay

Prêmios literários voltados para obras relacionadas à diversidade: Gay Book Award (hoje Stonewall Book Award), Lambda Literary Award e Ferro-Grumley Prize.

Livrarias especializadas criadas nas décadas de 1970 e 1980: Glad Day (Canadá), Little Sister's, Giovanni’s Room e Calamus (EUA). Em 2007 foi criada biblioteca dedicada ao tema, a Stonewall Library & Archives, na Flórida.

Autores de literatura gay já venceram Nobel de Literatura (Thomas Mann e André Gide) e Prêmio Pulitzer (Tennessee Williams, Edward Albee, Tony Kushner e Michael Cunningham).

Obras de referência: Satíricon (Petrônio), Billy budd e Moby dick (Herman Melville), Maurice (E.M. Forster), Morte em Veneza (Thomas Mann) e Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar). No Brasil: Bom crioulo, de Adolfo Caminha, O terceiro travesseiro, de Nelson Luiz de Carvalho, A imitação do amanhecer, de Bruno Tolentino.



  Hugo Monteiro. Crédito: Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

ENTREVISTA HUGO MONTEIRO
“As próprias escolas são preconceituosas”

Que tipo de preconceito é discutido no livro?

Não abordo apenas uma condição humana, mas questões ligadas a gênero, deficiência física, loucura, sexualidade. Identificam-se muito com as metáforas as pessoas ligadas a movimentos gays, bissexuais e travestis, pois muitos deles, para agradar à sociedade, têm algo que escondem.

Por que tratar essa temática junto ao público infantojuvenil?

É preciso atentar para as questões relacionadas à diversidade, um dos pontos mais importantes da condição humana, e que tem sido negligenciado. Curiosamente, a obra tem alcançado também um público adulto. É um reflexão sobre o fato de a sociedade querer que as pessoas sejam iguais e recusar traços transitórios e diferentes que caracterizam o ser humano.  A intolerância à diversidade é um problema muito frequente, pois está ligado ao preconceito.

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