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Namore um homem que lê

09 janeiro 2013 1 Comentário
Marcel Verrumo, no portal Ver Rumo.

Baseado no texto Date a girl who reads, de Rosemarie Urquico.

Namore um homem que coleciona livros, em vez de um cara que estufa o peito orgulhoso do último tênis que comprou. Um homem que te apresente sua biblioteca pessoal – mesmo que ela tenha duas pilhas com cinco livros – e não um cara que lhe exiba um carro. Namore um homem que guarda uma lista com os próximos livros que gostaria de ler, em vez de um cara que está indeciso sobre qual iPhone comprar.


Encontre um homem que gosta de ler. Você irá reconhecê-lo facilmente. Ele terá a fala calma – não é que seja lerdo, mas ele sabe que é preciso escolher as palavras com cuidado. De antemão, esteja ciente: às vezes, ele falará tão alto que o casal do banco ao lado irá reparar em vocês; outras, você precisará colar em sua boca para compreendê-lo. Ele sabe que cada fala exige um tom. Não se assuste se ele ficar em silêncio de repente. Homens que leem sabem que há momentos em que é preciso calar. Aprenda a ouvir o que ele quer dizer com o silêncio.

O homem que lê é aquele que toda vez para diante de uma livraria, que sempre está com um livro aberto na mão enquanto espera um café. Repare que sua xícara virá cheia de um café bem preto, de onde sai uma fumaça fina, convidativa. Talvez ele seja tão absorvido pela história que, quando se lembrar do café, não haverá mais fumaça e o líquido já estará frio. Isso será o de menos. Se ainda estiver curiosa, chegue mais perto das páginas e repare o que está escrito. Seja discreta, afinal, se ele perceber sua aproximação, certamente não hesitará em puxar uma conversa.

Divida com ele uma segunda xícara de café bem preto. Não se acanhe se preferir um chá, se ele oferecer pagá-lo, se olhar fundo nos seus olhos, se começar a ler um parágrafo a você.

Diga o que realmente pensa sobre Kafka. Cutuque para ver se ele teve a paciência exigida pelos extensos russos, se passou das 50 primeiras páginas de Grandes Sertões, se leu Meu pé de laranja lima na infância. Fale de Clarice Lispector – ele provavelmente entenderá mais de você caso tenha se debruçado sobre ela. E, não, não deixe de perguntar se ele leu Marley e Eu. E se chorou no final. É assim que você descobrirá seus limites.

É fácil presentear um homem que lê. Dê-lhe livros em seu aniversário, no Natal, no dia de bodas de qualquer coisa. E nunca, nunca se esqueça de escrever dedicatórias nas primeiras páginas. Dedicar-lhe uma leitura é dividir com ele um pedaço de seu mundo. Ofereça-lhe sua experiência com cada livro, com cada música, com cada poesia. Ofereça-lhe o mundo de Virginia Woolf, a complexidade das personagens de García Márquez, as parábolas de Saramago. Ofereça-lhe seu melhor e faça-o perceber que, para você, as palavras também são amor.

Saiba que um homem que lê reconhece os limites entre a ficção e a realidade, mas que ele fará de tudo para transformar a história de vocês em um romance com tons ficcionais. Não tenha medo, nem se se vir metida em um romance policial. Ele vai lutar para estar ao seu lado no desfecho. E saberá que você irá sofrer em muitos momentos, porque compreende que a evolução se dá nos momentos difíceis, que a felicidade acontece após a provação, que histórias precisam de clímax. Se seu romance não der certo, ele entenderá, pois sabe que histórias chegam ao fim.

Se você encontrar um homem que goste de ler, é melhor mantê-lo por perto. Quando ele estiver varando a noite com um livro aberto no sofá da sala, sente-se ao seu lado e escute o que ele estiver lendo. Quando seus olhos se cansarem, faça um café preto bem forte e divida com ele seus sonhos. Não calar é o primeiro passo para não morrer. Quando você sair da cama e ele estiver com o livro no colo, dormindo, feche-o com cuidado. Esse livro carrega o que forma seu parceiro como homem.

Declare uma poesia a ele no palco de um karaokê. Ou em uma carta escrita à mão. Ou em um post-it colado na geladeira antes de ir para o escritório. Ou no espelho do banheiro com um batom. Ou quando estiver alucinada depois de virar uma tequila na noite. Ou no silêncio da cama, quando você já não souber quais são as suas pernas. Declare a ele uma poesia em qualquer lugar.

Um dia, vocês vão juntar seus livros e formar uma biblioteca enorme, vão se lembrar de personagens da ficção quando passarem por uma dificuldade econômica, vão ter um cachorro com nome de escritor e um filho com o nome mais estranho da escola. Aliás, ele vai perder noites com seu filho lendo Peter Pan, vai te trocar por Emília e Pedrinho e só vai retornar à cama quando o menino já tiver pegado no sono. Mas mesmo tarde, ele voltará à cama todas as noites, carregando um novo universo para te presentar.

Namore um homem que lê porque você merece. Merece alguém que possa fazer você viver para além do cotidiano do trabalho, da casa, da família. Merece um homem que te dê todos os mundos possíveis. E os impossíveis. Merece um homem que te dê as melhores reflexões, as mais bonitas histórias de amor, as amizades mais verdadeiras. Se quiser o infinito, namore um homem que lê.

Ou, melhor ainda, namore um homem que escreve.
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Marcel Verrumo
Jornalista. Repórter no Casa.com.br, na Editora Abril, também escrevo o blog História sem Fim, da Revista Superinteressante. Publiquei nas revistas Superinteressante, Mundo Estranho, Aventuras na História e Arquitetura & Construção. Cursa Mestrado em Comunicação na Unesp

Um comentário:

  1. Oi Leonardo, adorei o post! O texto é bastante criativo e deixa bem claro as vantagens de se namorar alguém que lê!! Muito legal!!

    Te espero lá no Prólogo da Leitura, até mais!!

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